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ANPUR lança segundo episódio PURDCast sobre raça, racismo e cidades no Brasil

15/05/2026

A ANPUR lança, no dia 15 de maio, o segundo episódio do PURDCast, podcast institucional da entidade voltado à divulgação científica e ao debate público sobre temas centrais do planejamento urbano e regional no Brasil. Intitulado “Raça e cidade: do apagamento à luta antirracista no planejamento urbano e regional”, o episódio propõe uma reflexão sobre como as relações raciais estruturam os territórios urbanos brasileiros e influenciam o acesso à moradia, à mobilidade, à infraestrutura e ao próprio direito à cidade.

O lançamento do episódio ocorre em um contexto simbólico para o debate racial e urbano no Brasil. Além do 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea e historicamente ressignificada pelos movimentos negros como um marco de luta e resistência, 2026 também marca o centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos, celebrado em 03 de maio. Referência incontornável do pensamento urbano e regional brasileiro, Milton Santos foi presidente da ANPUR (1991-1993) e contribuiu decisivamente para a compreensão crítica das desigualdades socioespaciais.

Inspirado em formatos narrativos jornalísticos, o PURDCast combina narração, entrevistas, ambientação sonora e referências históricas para aproximar a produção acadêmica da sociedade. Neste novo episódio, a narrativa parte justamente do 13 de maio de 1888 para questionar a ideia de que a abolição da escravidão representou, de fato, liberdade e inclusão para a população negra no Brasil.

Ao longo do episódio, pesquisadoras e pesquisadores de programas de pós-graduação filiados à ANPUR discutem como o racismo se materializa no espaço urbano, produzindo desigualdades territoriais persistentes e moldando as experiências cotidianas nas cidades brasileiras. O debate articula temas como segregação socioespacial, planejamento urbano, memória, apagamento histórico, resistência cultural e justiça urbana.

Entre os convidados está Renato Emerson dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), que analisa como o racismo organiza historicamente a estrutura centro-periferia das cidades brasileiras e produz o que define como “geografias racializadas”. O pesquisador também discute a existência de “fronteiras invisíveis” que regulam a circulação de corpos negros e brancos nos espaços urbanos.

A discussão incorpora ainda as reflexões de Paulo Roberto Soares, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (POSGEA/UFRGS), que relaciona raça, vulnerabilidade territorial e eventos extremos, como as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024. Segundo o pesquisador, desastres ambientais revelam desigualdades historicamente construídas e atingem de forma mais intensa territórios periféricos e racializados.

Já o professor Amaro Marques, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PPGArq/PUC-Rio), discute como o planejamento urbano brasileiro historicamente atuou de forma excludente e segregadora. O pesquisador também apresenta as articulações da Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional, criada durante o XXI ENANPUR (2025), que denuncia os efeitos do racismo estrutural, da segregação socioespacial e dos apagamentos produzidos pelo campo.

O episódio também aborda os processos de resistência e produção de território protagonizados por populações negras. A professora Joana D’Arc de Oliveira, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), discute a importância dos territórios negros urbanos como espaços de memória, ancestralidade e enfrentamento ao racismo estrutural. Para a pesquisadora, esses territórios preservam práticas culturais e formas de sociabilidade que conectam materialidade, pertencimento e resistência.

Na mesma direção, Glória Cecília dos Santos Figueiredo, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPGAU/UFBA), reflete sobre as práticas culturais negras como formas de produzir e reinventar a cidade. A pesquisadora mobiliza o conceito de Amefricanidade, formulado pela antropóloga Lélia Gonzalez, para pensar como populações negras e indígenas atuam historicamente na construção das cidades latino-americanas, tensionando processos de apagamento e exclusão.

O PURDCast é uma iniciativa da Diretoria da ANPUR (Gestão 2025–2027) e terá episódios bimestrais até julho de 2027. A seleção de temas e participantes é realizada em articulação com os programas de pós-graduação filiados à associação.

A equipe de produção é composta por Renata Melo (roteiro e apresentação), Tuanni Borba (pesquisa, roteiro e entrevistas) e Hector Sousa (edição de som e trilha sonora).

Disponível no SpotifyDeezerSoundCloudYoutube e outras plataformas de streaming.

REFERÊNCIAS DO EPISÓDIO

  • ROLNIK, Raquel. Territórios negros nas cidades brasileiras: etnicidade e cidade em São Paulo e Rio de Janeiro. Revista de Estudos Afro-Asiáticos, v. 17, p. 1-17, 1989.
  • SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: A forma social negro-brasileira. Petrópolis: Vozes, 1988.
  • SANTOS, Renato Emerson dos. Uma leitura sobre espacialidades das relações raciais: raça, racialidade e racismo no espaço urbano. In: OLIVEIRA, Fabrício Leal de& LIMA JR, Pedro Novais de. (Org.). Território e planejamento: perspectivas transdisciplinares. 1ed.Rio de Janeiro: Letra Capital, 2018, v. 1, p. 345-366.
  • SANDERCOCK, Leonie. Introduction: Framing Insurgent Historiographies for Planning. In: Making the Invisible Visible. A Multicultural Planning History. Los Angeles: University of California Press, 1998. (SOBRE A CRÍTICA EPISTEMOLÓGICA AO CAMPO)
  • VARGAS, João da Costa. Apartheid brasileiro: raça e segregação residencial no Rio de Janeiro. Rev. Antropol. [online]. 2005, vol.48, n.1, pp.75-131. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012005000100003